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História da Uganda
 

História da Uganda

Nós, os ocidentais - no caso da triste América Latina, aqueles poucos bafejados pela modernidade ocidental - adquirimos o vício do europocentrismo. Nossa ciência, nossa técnica e, primordialmente, nossos valores, hoje vitoriosos e imperantes em todo o planeta, servem como paradigmas para toda e qualquer avaliação das "outras" culturas, por nós, quase sempre, tidas como "bárbaras" e "inferiores". Principalmente no pós-Guerra Fria, esvaziados os modismos ideológicos, tornou-se lugar comum a afirmação de que os conflitos do novo milênio assumirão a forma de "choques de civilizações". É corrente, mais do que nunca, entre os analistas das relações internacionais, a crença numa belicosa dualidade opondo "Nós", o Ocidente, ao "Outro", o Oriente. Além de simplista, essa asserção prima por um erro fundamental: não existe Oriente, mas Orientes. De fato, pouca semelhança existe entre o Irã, por exemplo, e o Japão, ambos primariamente rotulados de países orientais. Por conseguinte, ao analisarmos a realidade africana, devemos evitar juízos condenatórios segundo os parâmetros ocidentais. Ao longo do século XIX e na primeira metade do século XX, nossa presunção e soberba do "fardo do homem branco", a visão messiânica da "missão civilizadora", legitimadora do imperialismo ocidental, foi responsável por inúmeros danos e malefícios causados ao Continente Negro. Muitos dos valores e hábitos africanos contrastam com a ética ocidental; eles, os negros de África, cometem crimes, sem dúvida. O canibalismo, por exemplo, não agrada exatamente o nosso sofisticado paladar ético ocidental. Afinal, como dizia Chesterton, "a História é uma longa sucessão de crimes". A única diferença é que a técnica ocidental permite crimes em grande escala e presididos por uma complexa lógica administrativa de uma eficiência inédita: os genocidas campos de extermínio não foram criação das tribos africanas, mas, pelo contrário, dos loiros e "civilizados" europeus.

Na realidade, os déspotas africanos dos anos recentes são "travestis" culturais: uma aterrorizante simbiose entre costumes tribais e "poses" ocidentais. Recordando o clássico Machado de Assis "índio vestido de Senador do Império". Temos uma "culpa em cartório" originária: interferimos e violamos os costumes e a história africanos. Em 1885, na conferência de Berlim, quando as nações ocidentais partilharam os territórios do Negro Continente, a divisão foi feita segundo os interesses dos europeus, ignorando e violentando as realidades tribais. Criando países artificiais, que agrupavam em seu interior tribos culturalmente diferenciadas e, quase sempre, antagônicas, os europeus gestaram os conflitos que até hoje assolam a África Negra. O Ocidente abortou a linearidade do processo histórico africano, dando à luz um pavoroso feto eivado de ódio, ressentimento e, paradoxalmente, admirador do que existe de pior entre nós, um malfadado "clone" do Ocidente. Uganda é um típico espelho da entidade que ajudamos a modelar.

A evolução (ou talvez fosse melhor dizer a "involução") histórica de Uganda

Nos já infelizmente idos tempos que havia crianças - hoje transformadas e deformadas em tristes "adultos mirins" - era comum uma clássica fórmula para dar início aos contos que povoavam as imaginações infantis. Vamos usá-la aqui para relatar uma teratológica história de terror. Era uma vez o Reino de Buganda, onde prevalecia o trabalho e a propriedade coletivos, governado por autoritárias lideranças, os kabakas, assessorados por parlamentos embrionários denominados de lukiko. Talvez fossem felizes seus habitantes; mais provavelmente, desconheciam esse subversivo e incômodo conceito ocidental de "felicidade". Os bugandenses viviam segundo padrões culturais por eles mesmos criados. Bons ou maus, eram autenticamente seus. Em 1830, a região cairia sob o domínio do Sultanato de Omã, que daria início a um processo de islamização da população bugandense, parcialmente frustrado, pois, atualmente, mais de 60% dos habitantes de Uganda ainda são cristãos. Na segunda metade do século XIX, quando da corrida imperialista ocidental em direção à África, ingleses adentraram o território. O velho esquema britânico: chegavam, de início, pastores protestantes para "salvar" as almas; em seguida, médicos para curar os corpos e, por fim, soldados para acorrentar as consciências e também os corpos. Em 1894, os súditos de Sua Majestade britânica - na ocasião, a régia Vitória - transformaram Uganda em Protetorado. Em nome do "progresso" e do ocidental liberalismo econômico, os ingleses aboliram a propriedade coletiva da terra para possibilitar os empreendimentos privados, cujos beneficiários, além dos europeus, foram os privilegiados membros das elites oligárquicas tribais. Estava plantado o clássico problema dos países "terceiromundistas": a questão fundiária, os eternos "sem-terras" das áreas periféricas do Planeta.

Em 1949, quando do processo de descolonização, inúmeros levantes tribais forçaram os ingleses a conceder uma relativa autonomia a Uganda. Em 1960, o país se tornava independente sob a liderança de uma reminiscência dos antigos kabakas, Mutesa II, cujo primeiro ministro era o doutor Milton Obote, soturna figura que assombraria a política ugandense. Até 1964, Uganda permaneceu dentro da Comunidade Britânica das Nações, proclamando, na ocasião, a República. Em 1965, Obote, líder da agremiação partidária Congresso Popular de Uganda (CPU), alterou a Constituição e assumiu plenos poderes. Calcado numa retórica populista, buscou, de maneira paternalista, favorecer as camadas populares. Como bom títere "terceiro-mundista", em moda na época, adotou uma retórica nacionalista que se materializou na perseguição às minorias indianas existentes no país, que eram alvo da ira da maioria da população pelo fato de controlarem a vida comercial. Apregoando uma ideologia "africanista", Obote buscou a integração ente Uganda, a Tanzânia e o Quênia, que levaria a formação da Comunidade da África Oriental.

No "ringue" político ugandense: o boxeador letal.

Em janeiro de 1971, Obote foi derrubado por um sangrento golpe encabeçado pelo ex-sargento paraquedista do Exército Britânico e ex-campeão de boxe, Idi Amin Dada. O ex todas as profissões, Idi Amin, agora auto intitulado de "doutor", estava pronto para, de fato, presidir Uganda por intermédio do terror policialesco. Embora, de início, apoiado pelas elites econômicas locais, desgostosas com o populismo de Obote, o contraditório "líder" levou adiante uma série de medidas que desagradaram às companhias transnacionais que operavam em Uganda. De imediato, expulsou todos os habitantes de origem indiana, acusados de "exploração da economia popular". Os estabelecimentos comerciais, cujos proprietários eram esses indianos, foram, com absoluto apoio governamental, saqueados pela população enfurecida, que agora "adquiriam" de forma inusitada bens de consumo. Infelizmente, esses acabaram, pois mais ninguém em Uganda tinha crédito ou capacidade administrativa para importá-los. Felicidade popular efêmera, logo seguida pela escassez. Em pouco tempo, Idi Amin Dada montaria uma criminosa polícia política que, sem quaisquer restrições legais, aterrorizaria o país.

Paralelo ao seu discurso nacionalista e demagógico, Idi Amin sempre manteve boas relações com os governos dos Estados Unidos e da Inglaterra. Homem instável e camaleônico, Dada, que fora treinado por assessores militares israelenses, passou a apoiar a causa árabe e, aliando-se à Líbia, defendia o direito palestino a um Estado nacional independente. Mais do que retórico, esse apoio se concretizou quando Uganda acolheu um avião da Air France que fora sequestrado por comandos palestinos e terroristas alemães da "Fração do Exército Vermelho", organização de ultraesquerda que então atuava na República Federal da Alemanha. Posando de ator num dantesco teatro, Idi Amin assumiu o papel de mediador entre as autoridades israelenses e os sequestradores. Visitando os reféns, todos judeus, alegava estar em permanente contato com "seus amigos" Yitzhak Rabin e Shimon Peres. O episódio tornou-se mundialmente famoso quando tropas israelenses de elite levaram a efeito uma espetacular operação de resgate no aeroporto ugandense de Entebbe, que fora construído por engenheiros de Israel.

De atitudes sempre controvertidas e contraditórias, Idi Amin Dada era ardoroso defensor da integração dos países africanos, embora, por razões inexplicadas, posicionou-se contra a entrada de Angola na Organização de Unidade Africana (OUA). Seu discurso era "arabista", mas, ao mesmo tempo, dava suporte aos rebeldes cristãos e de religião animista do Sudão meridional, que então enfrentavam o governo muçulmano daquele país.

Sua vida pessoal era marcada por facetas "encantadoras": insaciável era seu apetite sexual, que tinha por objeto tanto suas incontáveis esposas legítimas e toda e qualquer moça que fosse do seu agrado: quase toda a população feminina de Uganda. O que mais o seduzia: o estupro. Matou inúmeros assessores, para poder "boxear" nos leitos de suas esposas. Outro curioso hábito: a prática do canibalismo, não só metafórico, pelo terror policial, mas também real. Mesclava, com prazer, iguarias, guloseimas e corpos humanos.

Cometeu um erro fatal: hostilizou o presidente Nyerere da Tanzânia, dotada de um poderoso exército. Em 1979, tropas da Tanzânia aliadas a militantes da resistência ugandense depuseram Amin, que foi obrigado a fugir de Campala, a capital de Uganda, obtendo asilo em sucessivos países árabes. Sucedido pelo fraco mandatário Ysuf Lule, um conservador professor universitário, Idi Amin Dada deixou, no solo e na memória ugandenses, um pavoroso legado de terror e morte. Pouco depois, voltaria ao cenário político o sempre presente Milton Obote, dando início a um novo e monótono ciclo de golpes militares e governos autoritários. Triste Uganda: reflexo de um continente cada vez mais esquecido.

 


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