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Fernando Sabino
 

Fernando Sabino

Leia um texto exclusivo, escrito por Fernando Sabino, para o 10emtudo.

SEMPRE que começo a escrever, desde menino até hoje, me sinto um principiante. Vou escrever alguma coisa que não sei o que seja, justamente para ficar sabendo. E que só eu posso me dizer, mais ninguém.

Por isso às vezes passo horas, dias à procura de uma palavra ou do fecho de uma frase. Não quero repetir as coisas já ditas, inclusive por mim, o que infelizmente as vezes acontece. Para isso tenho que desaprender o que aprendi, me livrar dos preconceitos, das ideias que me foram impostas, de tudo enfim que possa tolher a minha liberdade de expressão.

Tento a cada dia recuperar esse estado de pureza. Renascer a cada manhã. Não digo que consiga sempre, mas tento. Como se eu tivesse acabado de desembarcar neste mundo.

No mundo da literatura, desembarquei desde que me entendo por gente. Ainda menino, descobri que tinha vocação para mentiroso. Contando para os amigos alguma história que havia lido, começava a inventar, alterando o final, acrescentando personagens e episódios, modificando o enredo. Em suma, ajudando o autor.

Desde criança eu já achava que a verdade está muito além da realidade. Para mim, nossos sentidos eram fracos e deficientes, de pouco alcance: a vista devia enxergar mil quilômetros e ver através das paredes, o ouvido devia ouvir além da barreira do som.

Um dia perguntaram a Lúcio Cardoso por que ele escrevia.

- Porque não tenho olhos verdes. - respondeu o romancista mineiro.

Não é propriamente o meu caso, evidentemente ( se bem que eu também não tenha). Escrevo porque me sinto descompensado em relação à realidade que me cerca. Preciso de uma verdade fora de mim em que me agarrar, para ser do meu tamanho - nem maior, nem menor. A minha realidade interior vive abaixo do nível que me cerca. Para restabelecer o equilíbrio, num contato normal com os demais seres humanos, tenho que escrever. Como "O Tabuleiro de Damas" de meu livro com este título, que não é nem branco com quadrados pretos e nem pretos com quadrados brancos e sim de outra cor, com quadrados pretos e brancos; assim também, a recriação da realidade pela imaginação, através da linguagem escrita, é a maneira que tenho de me comunicar. Vivo para escrever, escrevo para sobreviver.

No quarto da Valdirene

Mal ele entrou em casa, a mulher o tomou pelas mãos, ansiosa:

- Estava aflita para você chegar.

E sussurrou, apontando dramaticamente para os lados da cozinha:

- Tem um homem no quarto da Valdirene.

Sacudiu a cabeça com irritação:

- Desde o primeiro dia eu achei que essa menina não era boa coisa. Ela nunca me enganou.

Valdirene, a jovem empregada, uma mulata de olhos grandes, não faria feio num palco.

- Como é que você sabe? - perguntou ele, para ganhar tempo. Não partilhava da opinião da mulher: desde o primeiro dia achou que a Valdirene era ótima.

- Sei porque vi. Escutei um ruído qualquer aí fora no corredor, olhei pelo olho mágico, e vi quando ela punha ele para dentro pela porta de serviço.

- Ele quem?

- O homem. Não sei quem é, só sei que é um homem. Deve ser o namorado dela, ou o amante, tanto faz. O certo e que os dois estão trancados lá no quarto faz um tempão.

- Vai ver que já saiu.

- Não saiu não, que eu não sou boba, fiquei de olho. Está lá dentro com ela até agora.

- E o que e que você quer que eu faça?

- Quero que bote ele pra fora, essa é boa.

- Por quê?

Ela botou as mãos na cintura:

- Por quê? Você ainda pergunta por que? Então tem cabimento a gente deixar que a empregada receba homens no quarto dela? O que é que essa menina está pensando que minha casa é? Um motel? Se você não for lá, eu mesma vou.

- Espera aí, vamos com calma, mulher. Você tem razão, mas deixa a gente raciocinar um pouco. Não podemos é perder a cabeça. Pode ser perigoso. Como é que ele é?

- Não cheguei a ver direito. Só vi que era um homem. Para mim, basta.

- Não posso ir lá no quarto dela sem mais nem menos. Quem sabe é algum parente? Um irmão, talvez...

- Um irmão, talvez... Você tem cada uma! Pior ainda: que é que um irmão tem de ficar fazendo trancado no quarto com a irmã como eles dois estão? Você tem de pôr esse homem pra fora.

- E se estiver armado? Ele pode muito bem estar armado.

- Já que você está com medo...

- Não estou com medo. Só que temos de agir com calma. Vamos ver como a gente sai dessa. Deixa comigo.

Ele respirou fundo e se meteu pela cozinha, ganhou a área de serviço, ficou à escuta. Nada, tudo quieto e às escuras no quarto da Valdirene. Bateu de leve na porta:

- Valdirene. Via-se pelas frestas da veneziana na própria porta que o quarto continuava no escuro. Ele bateu de novo:

- Valdirene, está me ouvindo? Valdirene!

Escutou alguém se mexendo lá dentro e a voz estremunhada da moça: - Senhor?

- Tem alguém com você ai dentro, Valdirene?

- Tem não senhor.

- Abra um instante, por favor. Em pouco ela abria a porta, furtivamente, e o encarava sem piscar. Vestia um baby-doll pequenino e transparente que, sob a luz mortiça vinda da área, deixava quase todo seu corpo à mostra.

- Acenda essa luz, minha filha.

Mais para vê-la melhor do que para olhar o quarto, pois mesmo no escuro podia-se verificar que ali dentro não havia mais ninguém. Luz acesa, ela se protegia discretamente com os braços, enquanto ele dava uma olhada rápida por cima do seu ombro:

- Tudo bem. Desculpe o incômodo. Boa noite.

Voltou para a sala, onde a mulher o aguardava, tensa de expectativa.

Texto extraído do livro "O gato sou eu", contos e crônicas, Record, 1983


No quarto da Valdirene

- E então?

- Não tem ninguém.

- Como não tem ninguém? Pois se eu vi o homem entrando!

- Se viu entrando, não viu saindo. O certo é que não tem ninguém no quarto da Valdirene, além dela própria. Vamos dormir.

- Como é que eu posso ir dormir sabendo que tem um estranho dentro de casa? Você vai voltar lá e olhar direito.

- Eu olhei direito. Se não acredita, vai lá e olha você.

- Quem é o homem nesta casa? Se você não for olhar eu não fico aqui dentro nem mais um minuto. Vou direto à polícia.

Ele ergueu os braços e os deixou cair, com um suspiro resignado:

- Essa mulher, meu Deus. Agora é você que está com medo. Direto à polícia. Como se fosse um crime... Tudo bem, eu vou lá olhar direito.

Voltou a bater na porta da empregada: - Valdirene.

Desta vez ela respondeu logo: - Senhor?

- Abra ai um instante, por favor.

- Sim senhor. Ela abriu e foi logo acendendo a luz. Estimulado pela nova oportunidade de vê-la tão de perto, ele perdeu a cerimônia e entrou no quarto. Sempre de olho nela e ouvido atento à mulher lá na sala. Ali dentro só cabia a cama e o armariozinho com uma cortina, atrás da qual ninguém poderia se esconder. Ainda assim ergueu o pano para se certificar. Satisfeito, voltou-se para a moça que, ao sentir seus olhos tão próximos, abaixara modestamente os dela:

- Desculpe, minha filha. É que minha mulher, você sabe, quando ela cisma uma coisa... Mas pode dormir sossegada. Boa noite.

Na sala, a mulher voltou a questioná-lo: - Você olhou direito desta vez?

- Não há como olhar errado. Um quarto deste tamaninho! Olhei o que tinha para olhar: a Valdirene e a cama.

- A Valdirene e a cama? O que você quer dizer com isso?

- Não quero dizer coisa nenhuma. É que ali dentro não cabe mais nada além da Valdirene e da cama.

- Não é isso que parece estar insinuando, com essa sua cara.

- Que é que tem minha cara? Você é que insinuou que tinha um homem lá dentro, não fui eu. Não me admiraria nada. Mas acontece que não tem. Só faltou olhar debaixo da cama.

- Não admiraria nada - ela o imitou, com um trejeito. E ordenou, braço estendido:

- Pois então vai olhar debaixo da cama.

- Essa não! - relutou ele: - Já disse que não cabe ninguém...

Mas acabou indo. Pobre da menina, de novo importunada:

- Me desculpe, Valdirene, mas é preciso que você abra aí outra vez.

Ela acendeu a luz, abriu a porta e deu-lhe passagem. Seus olhos o acompanharam impassíveis, quando ele entrou e se agachou para olhar debaixo da cama. De quatro, sentindo-se ridículo naquela postura, ele baixou a cabeça até que a ponta do queixo tocasse o chão, e enfiou-a sob o estrado. Seu nariz esbarrou de cheio em algo branco e macio - era nada menos que o traseiro de um homem.

- Oi - assustou-se, recuando.

- Oi - fez o homem, como um eco, encolhendo-se ainda mais.

Ele se ergueu. perturbado, limpou a garganta, procurando dar firmeza à voz:

- O senhor tem um minuto pra sair deste quarto.

Um último olhar para Valdirene, como a dizer que sentia muito mas não podia deixar de cumprir o seu dever, e foi ter com a mulher na sala:

- Tinha sim. Tinha um homem debaixo da cama. Está satisfeita?

- Eu não disse? E o que é que você fez?

- Mandei que ele se pusesse pra fora. É o tempo de se vestir.

- Meu Deus, ele estava nu?

- Que é que você queria? Não sei é como ele pôde caber lá debaixo. Imagino o susto dele. E o da Valdirene, coitadinha.

No dia seguinte, mal amanheceu, ela despedia a Valdirene, coitadinha.

Texto extraído do livro "O gato sou eu", contos e crônicas, Record, 1983

Bibliografia

- Os grilos não cantam mais, contos, Pongetti, 1941
- A marca, novela, José Olympio, 1944
- A cidade vazia, crônicas e histórias de Nova York, O Cruzeiro, 1950
- A vida real, novelas, Editora A Noite, 1952
- Lugares-comuns, dicionário, MEC-Cadernos de Cultura, 1952
- O encontro marcado, romance, Civilização Brasileira, 1956
- O homem nu, contos e crônicas, Editora do Autor, 1960
- A mulher do vizinho, crônicas, Editora do Autor, 1962
- A companheira de viagem, crônicas, Editora do Autor 1965
- A inglesa deslumbrada,crônicas e histórias da Inglaterra e do Brasil, Editora Sabia/1967
- Gente, crônicas e reminiscências, Record, 1975
- Deixa o Alfredo falar!, crônicas e histórias, Record, 1976
- O encontro das águas, crônica irreverente de uma cidade tropical, Editora Record/1977
- O grande mentecapto, romance, Record, 1979
- A falta que ela me faz, contos e crônicas, Record, 1980
- O menino no espelho, romance, Record, 1982
- O gato sou eu, contos e crônicas, Record, 1983
- Macacos me mordam, conto em edição infantil, Record, 1984
- A vitória da infância, crônicas e histórias, Editora Nacional, 1984
- A faca de dois gumes, novelas, Record, 1985
- O pintor que pintou o sete, história infantil, Berlendis & Vertecchia, 1987
- Os melhores contos, seleção, Record, 1987
- As melhores histórias, seleção, Record, 1987
- As melhores crônicas, seleção, Record, 1987
- Martíni seco, novela, Ática, 1987
- O tabuleiro das damas, esboço de autobiografia, Record, 1988
- De cabeça para baixo, relato de viagens, Record, 1989
- A volta por cima, crônicas e histórias curtas, Record, 1990
- Zélia, uma paixão, romance-biografia, Record, 1991
- O bom ladrão, novela, Ática, 1992
- Aqui estamos todos nus, novela, Record, 1993
- Os restos mortais, novela, Ática, 1993
- A nudez da verdade, novela, Ática, 1994
- Com a graça de Deus, leitura fiel do Evangelho, Record, 1995
- O outro gume da faca, novela, Ática, 1996
- Obra reunida - 3 volumes, Nova Aguillar, 1996
- Um corpo de mulher, novela, Ática, 1997
- O homem feito, novela, Ática, 1998
- Amor de Capitu, recriação literária, Ática, 1998
- No fim dá certo, crônicas e histórias, Record, 1998
- A Chave do Enigma, crônicas, Record, 1999
- O Galo Músico, crônicas, Record, 1999

Observação: dados obtidos e transcritos em parte dos livros do autor  e de "Quadrante II", Editora do Autor, 1968.

A Última Crônica

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

Como nasce uma história

Quando cheguei ao edifício, tomei o elevador que serve do primeiro ao décimo quarto andar. Era pelo menos o que dizia a tabuleta no alto da porta.

- Sétimo - pedi.

Eu estava sendo aguardado no auditório, onde faria uma palestra. Eram as secretárias daquela companhia que celebravam o Dia da Secretária e que, desvanecedoramente para mim, haviam-me incluído entre as celebrações.

A porta se fechou e começamos a subir. Minha atenção se fixou num aviso que dizia:

É expressamente proibido os funcionários, no ato da subida, utilizarem os elevadores para descerem.

Desde o meu tempo de ginásio sei que se trata de problema complicado, este do infinitivo pessoal. Prevaleciam então duas regras mestras que deveriam ser rigorosamente obedecidas, quando se tratava do uso deste traiçoeiro tempo de verbo. O diabo é que as duas não se complementavam: ao contrário, em certos casos francamente se contradiziam. Uma afirmava que o sujeito, sendo o mesmo, impedia que o verbo se flexionasse. Da outra infelizmente já não me lembrava. Bastava a primeira para me assegurar de que, no caso, havia um clamoroso erro de concordância.

Mas não foi o emprego pouco castiço do infinitivo pessoal que me intrigou no tal aviso: foi estar ele concebido de maneira chocante aos delicados ouvidos de um escritor que se preza.

Ah, aquela cozinheira a que se refere García Márquez, que tinha redação própria! Quantas vezes clamei, como ele, por alguém que me pudesse valer nos momentos de aperto, qual seja o de redigir um telegrama de felicitações. Ou um simples aviso como este:

É expressamente proibido os funcionários...

Eu já começaria por tropeçar na regência, teria de consultar o dicionário de verbos e regimes: não seria aos funcionários? E nem chegaria a contestar a validade de uma proibição cujo aviso se localizava dentro do elevador e não do lado de fora: só seria lido pelos funcionários que já houvessem entrado e portanto incorrido na proibição de pretender descer quando o elevador estivesse subindo. Contestaria antes a maneira ambígua pela qual isto era expresso:

. . . no ato da subida, utilizarem os elevadores para descerem.

Qualquer um, não sendo irremediavelmente burro, entenderia o que se pretende dizer neste aviso. Pois um tijolo de burrice me baixou na compreensão, fazendo com que eu ficasse revirando a frase na cabeça: descerem, no ato da subida? Que quer dizer isto? E buscava uma forma simples e correta de formular a proibição:

É proibido subir para depois descer.

É proibido subir no elevador com intenção de descer.

É proibido ficar no elevador com intenção de descer, quando ele estiver subindo.

Descer quando estiver subindo! Que coisa difícil, meu Deus. Quem quiser que experimente, para ver só. Tem de ser bem simples:

Se quiser descer, não tome o elevador que esteja subindo.

Mais simples ainda:

Se quiser descer, só tome o elevador que estiver descendo.

De tanta simplicidade, atingi a síntese perfeita do que Nelson Rodrigues chamava de óbvio ululante, ou seja, a enunciação de algo que não quer dizer absolutamente nada:

Se quiser descer, não suba.

Tinha de me reconhecer derrotado, o que era vergonhoso para um escritor.

Foi quando me dei conta de que o elevador havia passado do sétimo andar, a que me destinava, já estávamos pelas alturas do décimo terceiro.

- Pedi o sétimo, o senhor não parou! - reclamei.
O ascensorista protestou:

- Fiquei parado um tempão, o senhor não desceu.
Os outros passageiros riram:

- Ele parou sim. Você estava aí distraído.

- Falei três vezes, sétimo! sétimo! sétimo!, e o senhor nem se mexeu — reafirmou o ascensorista.

- Estava lendo isto aqui - respondi idiotamente, apontando o aviso.

Ele abriu a porta do décimo quarto, os demais passageiros saíram.

- Convém o senhor sair também e descer noutro elevador. A não ser que queira ir até o último andar e na volta descer parando até o sétimo.

- Não é proibido descer no que está subindo?
Ele riu:

- Então desce num que está descendo.

- Este vai subir mais? - protestei: - Lá embaixo está escrito que este elevador vem só até o décimo quarto.

- Para subir.  Para descer, sobe até o último.

- Para descer sobe?

Eu me sentia um completo mentecapto. Saltei ali mesmo, como ele sugeria. Seguindo seu conselho, pressionei o botão, passando a aguardar um elevador que estivesse descendo.

Que tardou, e muito. Quando finalmente chegou, só reparei que era o mesmo pela cara do ascensorista, recebendo-me a rir:

- O senhor ainda está por aqui?

E fomos descendo, com parada em andar por andar. Cheguei ao auditório com 15 minutos de atraso. Ao fim da palestra, as moças me fizeram perguntas, e uma delas quis saber como nascem as minhas histórias. Comecei a contar:

- Quando cheguei ao edifício, tomei o elevador que serve do primeiro ao décimo quarto andar. Era pelo menos o que dizia a tabuleta no alto da porta.

Como vencer no bar sem fazer força

No dia do enterro de Churchill ele foi barrado pela Polícia nada menos que cinco vezes. Tinha credencial para se postar com as suas cinco câmeras junto ao Parlamento, mas cismou de entrar na Catedral de São Paulo, onde só eram admitidos os fotógrafos oficiais: meto uma conversa, estou aqui, estou lá dentro. O guarda se postava em seu caminho, ele tranquilamente metia sua conversa em português, desconversava, driblava, embrulhava:

- Deixa pra lá, meu chapa: proibido nada. Pra cima de mim?

Na quinta vez o guarda perdeu a paciência e o levou em cana. Mas não saber inglês sempre tinha suas vantagens:  passado para as mãos dos policiais do carro de presos, tantas falou e aconteceu, que em pouco voltava, lampeiro, para junto da catedral:  eu não dizia? Olha o papai aqui. Agora vou entrar aí e mandar minhas brasinhas.

E acabou entrando.
Depois do que, resolveu fazer uma reportagem fotográfica de Londres, vista de cima. Vista de cima de onde? Londres não tem cima. Só se fosse do Hotel Hilton, onde não admitem fotógrafos, para que a intimidade da Família Real, nos jardins do Palácio Buckingham não seja devassada. Mas ele tinha melhor: para que, então, havia sido inventado o helicóptero?

- Onde é que você vai arranjar helicóptero? Ainda mais sem falar inglês. Vai levar no mínimo uma semana. Deve precisar de licença especial.

- Que licença especial! - e ele peneirava o ar com a mão espalmada:

- Meto aí umas conversas, você vai ver só.

No mesmo dia rodava de helicóptero nos céus de Londres, fotografando o que queria e bem entendia.
À noite foi ao pub tomar uma cerveja. O lugar estava repleto, derramava freguês pela calçada. Ele abriu caminho com as mãos, como se nadasse de peito:

- Vai que é mole, minha gente - e foi se enfiando bar adentro.

Mas era impossível alcançar o balcão, atrás do qual o dono se desdobrava passando canecas espumantes aos mais afortunados que se comprimiam ao seu redor. Ele bateu no ombro do inglês que lhe barrava a frente, estendeu-lhe uma nota:

- Olha aqui, ó velhinho, vê se me encomenda uma cerveja ao bigodudo lá do balcão. Vai passando pra frente.

- I beg your pardon? - o inglês o olhava atônito.

- Bir, bir - esclareceu ele, correndo o mesmo risco daquele principiante em inglês que sentia não estar fazendo progressos, pois toda vez que pedia uma cerveja lhe traziam um urso. Com uma mímica desabusada, que abria em torno uma clareira de empurrões, conseguiu explicar ao outro o seu propósito. E batia no peito como Tarzan:

- Mim brasileiro.

A nota foi passando de mão em mão, e apontavam:

- Uma cerveja. Para um brasileiro ali atrás.
Em pouco veio voltando por sobre as cabeças uma caneca de cerveja. Atrás dela voltou o troco. Todos achavam graça, inclusive o dono do bar, e procuravam colaborar:

- Vai passando. Muito obrigado.
Estava inaugurado um novo sistema de atendimento, dentro da ética secular dos bares ingleses. Ele já sugeria ao seu vizinho:

- Quer uma cerveja? Me dá seu dinheiro aqui. Você aí da frente, vai levando.
Para um terceiro abriu caminho novo, usando uma série de mãos solicitar à sua direita, em linha torta até o balcão.  Estabeleceu mais uma conexão à sua esquerda, aos poucos foi lançando por sobre as cabeças várias rotas aéreas de dinheiro na ida e cerveja na volta, às vezes seguida do troco e de respingos de espuma.
Em poucos minutos o bar era um pandemônio: moedas circulavam de mão em mão, canecas eram passadas daqui para ali, algumas se entornavam. Atrás do balcão, o bigodudo punha as mãos na cabeça, incapaz de atender a um de cada vez, ameaçava botar todo mundo para fora antes da hora de fechar. Onde, desde os tempos de Dickens reinava o mais compungido silêncio e a mais perfeita ordem, baixou pela primeira vez na História a mais animada das confusões e o contentamento era geral. Os fregueses riam, alegres, e se prestavam a multiplicar o movimento, estendendo os braços como remos naquele mar de cabeças:

- Para quem essa cerveja?

- Pega ali o meu troco.

- Mais uma para mim!

O sistema do mutirão se alastrara pelo bar inteiro, já ninguém mais sabendo de quem para quem.  A horas tantas ele se despediu com um tapa nas costas dos que o circundavam, à brasileira, quando a animação ia no auge e se transformava em cantoria:

- Este bar já está chato. Vou me mandar e inaugurar outro.

Texto extraído do livro"A inglesa deslumbrada",crônicas e histórias da Inglaterra e do Brasil, Editora Sabia/1967


Dois entendidos

Dizem que tem uma memória extraordinária e sabe tudo sobre futebol. Suas lembranças desafiam contestação.

Um dia, porém, viu-se numa reunião em que se achava outro com igual prestígio. E os dois acabaram se defrontando:

- Você se lembra da primeira Copa Roca disputada no Brasil? - perguntou-lhe o outro.

- Se me lembro.

E disse o dia, o mês e o ano.

- Fazia um calor danado.

- Isso mesmo: um calor danado. Lembra-se da formação do time brasileiro?

- Quem é que não se lembra?

Cantou para o outro o time todo. O outro ia confirmando com a cabeça. Fez apenas uma ressalva quanto ao extrema-esquerda.

- Eu sei: mas estou falando o time titular. Agora vou lhe dizer os reservas.

Declamou a lista dos reservas, e sugeriu, por sua vez:

- Você naturalmente se lembra da formação do time argentino.

O outro embatucou: o time argentino? Não, isso ninguém era capaz de dizer.

- Pois então tome lá.

E recitou o time argentino. O outro, meio ressabiado, procurou recuperar o terreno perdido:

- Para nomes não sou muito bom. Mas me lembro que o goleiro argentino segurou um pênalti. - Um pênalti mal cobrado, foi por isso: faltavam sete minutos para acabar o jogo.

O outro, como que ocasionalmente, disse quem cobrara o pênalti, fazendo nova investida:

- E lhe digo mais: o juiz apitou quinze "fouls" contra nós no primeiro tempo, dezessete contra eles. No segundo tempo...

- Está aí; isso eu não sou capaz de garantir. Tudo mais sobre o jogo eu lhe digo. Aliás, sobre esse jogo, ou qualquer outro que você quiser, de 1929 para cá. Mas essa história de número de "fouls". . Como é que você sabe disso com tanta certeza?

- Sei - tornou o outro, triunfante - porque fui o juiz da partida.

Com essa ele não contava. O juiz da partida.

- Como é mesmo o seu nome?

Ficou a rolar na língua o nome do outro.

- Você tinha algum apelido?

O outro deu uma gargalhada:

- Juiz, com apelido? Naquele tempo eu já me fazia respeitar.

- Sei, sei - e ele sacudiu a cabeça, pensativo.

- Engraçado, me lembro perfeitamente do juiz, não se parecia com você. Chamava-se... Espera aí: se não me falha a memória...

- Ela costuma falhar, meu velho.

Ao redor a expectativa dos circunstantes crescia, ante o duelo dos dois entendidos.

- ...o juiz era grande, pesadão, anulou um gol nosso, houve um começo de sururu...

- Emagreci muito desde então. E anulei o gol porque já tinha apitado quando ele chutou. Houve realmente um ligeiro incidente, mas fiz valer minha autoridade e o jogo prosseguiu.

- Você já tinha apitado...

- Já tinha apitado.

Os dois se olharam em silêncio.

- Quer dizer que quem apitou aquele jogo foi você - recomeçou ele, intrigado.

- Fui eu. E lhe digo mais: quando Fausto fez aquele gol de fora da área...

- Já na prorrogação.

- Na prorrogação: quiseram protestar dizendo que ele estava impedido...

- Não estava impedido.

- Eu sei que não estava. Tanto assim que não anulei. Mesmo porque, a regra naquele tempo era diferente.

- Nem naquele tempo nem hoje nem nunca aquilo seria impedimento. Se o juiz me anula aquele gol...

-...teria que anular também o primeiro gol dos argentinos...

-...que foi feito exatamente nas mesmas condições.

Calaram-se um instante, medindo forças. Mas o outro teve a infelicidade de acrescentar:

- Mesmo que o bandeirinha tivesse assinalado...

Ele saltou de súbito, brandindo o dedo no ar:

- Já sei! isso mesmo! Você não foi juiz coisa nenhuma! Você era o bandeirinha! Me lembro muito bem de você: era mais gordo mesmo, todo agitadinho, corria se requebrando... Tinha o apelido de Zuzú.

O outro não teve forças para negar e se rendeu à memória do adversário. Mesmo porque, encafifado, fazia uma cara de Zuzú.

Trecho extraído do livro "A companheira de viagem", crônicas, Editora do Autor 1965


Prêmio

- Em julho de 1999 recebeu da Academia Brasileira de Letras o  maior prêmio literário do Brasil,  "Machado de Assis", pelo conjunto de sua obra. 
O valor do prêmio, R$40.000,00, foi doado pelo autor a instituições destinadas a crianças carentes.  O desembargador Alyrio Cavallieri, ex-juiz de menores, revelou que em 1992, todos os direitos recebidos pelo autor do polêmico livro "Zélia, uma paixão" também foram distribuídos a crianças pobres.

Observação: dados obtidos e transcritos em parte dos livros do autor  e de "Quadrante II", Editora do Autor, 1968.

 


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