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Crise da Argentina
 

Crise da Argentina

Entre as duas grandes guerras mundiais, a Argentina foi um país promissor, com a economia mais prospera da América Latina. Após a Segunda Guerra Mundial, o cenário começou a mudar e o país ficou preso entre uma série de crises políticas e econômicas.

Na década de 1980, a economia argentina sofreu uma hiperinflação. Em 1989, o presidente Carlos Menem fixou o peso ao dólar e em 1991, ele juntamente com Domingo Cavallo (Ministro das Finanças), introduziu o regime de "currency board", um sistema monetário onde o peso (a moeda corrente argentina) seria rigidamente fixada ao dólar. A introdução desse regime monetário significava que o governo do país garantiria que 1 peso poderia a qualquer momento ser trocado por 1 dólar americano.

Inicialmente a economia reagiu bem. A equivalência ao dólar teve um impacto positivo sobre investidores e sobre as expectativas e comportamento da população. A inflação caiu drasticamente e a performance econômica melhorou. A economia argentina prosperou até 1995, quando o país entrou em uma recessão devido ao contágio (difusão de incerteza econômica de um país para outro) da crise econômica do México, também conhecida como efeito tequila. Durante o processo de recuperação da economia argentina, o país enfrentou outra crise de contaminação em 1997, quando diversos países asiáticos - conhecidos como Tigres Asiáticos - sofreram perturbação econômica.  Em 1998 foi a vez da crise da Rússia.

Enquanto esses países emergentes sofriam colapsos financeiros, a confiança de investidores em outros países emergentes (como o Brasil e a Argentina) diminuía. Investidores se tornaram menos dispostos a investir dinheiro nestes países. Para piorar a situação argentina, em janeiro de 1999, o Brasil desvalorizou o real. Desta vez a Argentina acabou sendo fortemente atingida.

A Argentina insistiu em manter seu "currency board", paridade de um peso por um dólar, mesmo que outros mercados emergentes, incluindo seu vizinho Brasil, tivessem desvalorizado significantemente suas moedas. Sendo assim, os produtos argentinos tornaram-se mais caros em termos de dólares e menos competitivos que os produtos de outros países emergentes. Por outro lado, as importações na Argentina tornaram-se relativamente baratas, danificando as indústrias locais.

Um exemplo pode ilustrar a situação:

A Argentina fixa sua moeda corrente em um peso para um dólar. Suponhamos que o país venda um chocolate por um peso, o equivalente a um dólar, e que o Brasil também adote 1 real por um dólar, e venda o mesmo chocolate por um real.

Um dia, o Brasil decide mudar sua política monetária, e desvaloriza sua moeda corrente. Agora, 1 real é equivalente a meio dólar. O Brasil continua a vender o chocolate por um real.  Mas agora, o preço do chocolate em dólar é apenas 50 centavos. Outros países, os Estados Unidos, por exemplo, agora escolhem comprar chocolate do Brasil, porque custa apenas 50 centavos de dólar. Na Argentina, contudo, que manteve valor fixo de 1 peso por 1 dólar, o chocolate ainda custa 1 dólar. Sendo assim, quando o Brasil desvaloriza sua moeda corrente a Argentina perde suas exportações.

As indústrias locais também se danificam na Argentina, pois agora o país pode importar mais barato de outros países que desvalorizaram sua moeda. No caso dos chocolates, uma revendedora na Argentina prefere comprar chocolates do Brasil (onde custa apenas 50 centavos de dólar = igual a 50 centavos de peso) em vez de comprar em seu país, onde um peso ainda equivale a um dólar.

Em dezembro de 1999, Fernando de la Rua ocupou o cargo de presidente da Argentina e tomou medidas que visaram a retomada da confiança de seus investidores, crucial para o bem estar econômico de seu país. De la Rua prosseguiu estreitando a política fiscal. Estreitar a política fiscal significa aumentar impostos e/ou diminuir os gastos do governo, reduzindo a circulação de dinheiro na economia. Quando há menos dinheiro em circulação, as pessoas compram menos e assim os preços normalmente caem. Como preços altos na Argentina haviam sido considerados uma das principais razões para a recessão, a deflação parecia um passo positivo (Deflação é o oposto de inflação).

É importante ressaltar que quando um país adota um regime cambial de fixar sua moeda à outra, o país desiste do controle sobre taxas de juros (Existem explicações econômicas para isso). No caso da Argentina, que fixou sua moeda ao dólar americano, suas taxas de juros eram diretamente afetadas por decisões tomadas nos Estados Unidos. Obviamente, o Banco Central Americano não levava em conta as consequências de suas decisões sobre a economia Argentina, mas apenas sobre a americana. Então quando a Argentina entrou em uma recessão em 1996/1997, o governo - devido ao regime cambial - não tinha o poder de reduzir os juros para estimular a economia. Enquanto o país necessitava de juros mais baixos para combater sua recessão, os Estados Unidos aumentavam os juros já que a economia americana estava com a sua economia aquecida e o Banco Central Americano temia a inflação no país.

Com a moeda super valorizada, os produtos argentinos perdendo lugar no mercado mundial, e diversos anos consecutivos de recessão, muitas pessoas e investidores começaram a acreditar que o país não seria capaz de manter a paridade de sua moeda com o dólar americano. Consequentemente a população Argentina correu para retirar depósitos dos bancos e começaram a trocar pesos por dólares, temendo uma desvalorização do peso. Uma desvalorização significaria que seu dinheiro passaria a valer menos. Com a corrida para converter pesos em dólares e retirar dinheiro dos bancos, o governo argentino passou a precisar de reservas maiores de dólares para continuar satisfazendo as exigências da população. Em 1991, o governo havia garantido que todos que queriam trocar pesos por dólares poderiam fazê-lo, a qualquer hora. Foi nesse momento, mais do que nunca, que o Fundo Monetário Internacional (FMI) teve um papel crucial. O FMI forneceu à Argentina altas somas em empréstimos, incluindo um pacote de $40 bilhões em 2000 para apoiar o peso e outro de $28 bilhões em 2001. Não demorou muito para que a Argentina acumulasse uma dívida internacional quase impossível de ser paga.

Ao emprestar dinheiro para a Argentina, o FMI impôs diversas condições, sendo que uma delas exigia que o país tivesse déficit zero no orçamento. Apesar desta política parecer razoável, não era aconselhável, considerando-se as necessidades imediatas do país. A economia estava em recessão, e, em recessões normalmente não se deve balancear orçamentos. A razão para isso é que quando há uma recessão, os governos devem gastar dinheiro (e não economizar) para tentar aquecer a economia.

Em suma, o governo argentino sofreu com dois problemas econômicos simultâneos: o governo não tinha controle sobre suas taxas de juros e não estava autorizado a aumentar os gastos do governo. Em termos de estimular a economia e tirar o país da recessão o governo estava com as mãos atadas.

A Argentina estava em uma situação delicada. O país tomou empréstimo em dólares, mas suas rendas (impostos) eram todas em peso. Se o país desvalorizasse sua moeda, sua dívida continuaria em dólar, mas agora suas rendas (quando convertidas ao dólar) diminuiriam. Sendo assim, a Argentina teria menos dinheiro para pagar suas massivas dívidas denominadas em dólar. Diante de tal cenário, o risco Argentina crescia.  Os investidores começaram a exigir taxas de juros mais altas para compensar pelo risco. Tais taxas danificavam ainda mais a economia, não permitindo que o país se recuperasse da recessão. A recessão profunda já havia deixado milhares de pessoas desabrigadas, negócios estavam fechando a cada dia e o desemprego havia crescido a níveis nunca antes alcançados.

Em novembro de 2000, as taxas de juros (devido ao risco Argentina) dispararam e o FMI interviu com seu  kit de "primeiros socorros" econômico.  Na primavera de 2001, o Presidente de la Rua trouxe de volta Domingo Cavallo como ministro das finanças. Cavallo tinha sido o criador do "currency board". Sendo um economista tão proeminente, a presença de Cavallo elevou a confiança dos investidores. Contudo, Cavallo insistiu em manter a paridade cambial. Suas medidas não funcionaram e manifestações populares, tumultos e fúria levaram à renúncia de Cavallo e em dezembro de 2001, do Presidente Fernando de la Rua.

Durante as duas semanas que se seguiram à renúncia do presidente Fernando de la Rua, quatro presidentes chegaram ao comando e também renunciaram. O quinto foi Eduardo Duhalde, eleito no dia 1 de janeiro de 2002, em uma sessão de emergência do congresso. Ele hoje permanece no poder e se tudo correr bem, servirá até o final de 2003. Duhalde é um peronista que havia sido derrotado por De la Rua nas eleições presidenciais de 1999.

Logo após sua posse, Duhalde enfrentou protestos de pessoas nas ruas batendo em potes e panelas exigindo que ele deixasse o cargo. Duhalde, enquanto governador da província de Buenos Aires, esteve envolvido em muitas acusações de corrupção. Em janeiro de 2002, centenas de pessoas estavam protestando nas ruas contra o que acreditavam ser apenas outro político corrupto.

Duhalde assumiu a presidência de um país falido que havia suspendido o pagamento de sua dívida internacional, causando o maior atraso no pagamento de uma dívida externa da história.

Antes de Duhalde tomar posse, o Banco Central garantiu às pessoas que possuíam pesos o direito legal de convertê-los livremente para o dólar. Duhalde, no dia 6 de janeiro de 2002 encerrou tais práticas e confiscou $17.8 bilhões de reservas estrangeiras e desvalorizou a moeda argentina; encerrando uma década da paridade entre peso e dólar. O governo bloqueou depósitos e forçou bancos comerciais a retornarem os dólares ao Banco Central. Duhalde converteu os depósitos que haviam sido feitos em dólares para pesos (o "currency board" havia permitido que a Argentina mantivesse depósitos em dólar dentro do país).  Alguns acusaram as medidas tomadas de roubo legalizado.

Cidadãos voltaram às ruas, tumultuando e manifestando contra o novo governo.

Atualmente Duhalde está tentando negociar novos acordos de empréstimos com o FMI. Contudo, o FMI vem mostrando relutância para conceder os novos empréstimos ao país. Duhalde está tentando dar os sinais certos ao fundo, aprovando uma redução em 14% no orçamento do governo nos próximos anos; sendo que umas das maiores reclamações do FMI são as finanças questionáveis do governo. Como exigência, o FMI também quer que a Argentina inicie negociações com credores estrangeiros e apresente propostas apropriadas para lidar com seus problemas no sistema bancário.

O governo argentino precisa do apoio do FMI para estabelecer um sistema cambial estável com moeda flutuante no país. O governo argentino está tentando conseguir $10 bilhões do FMI e fundos adicionais de outros bancos de desenvolvimento. Enquanto isso, previsões otimistas, em relação à economia Argentina, são de 15% de inflação e 5% de queda no PIB para 2002.

Duhalde está longe de ganhar popularidade, dentro e fora do país. A população está empobrecida e com raiva, enquanto o FMI e outros líderes políticos mundiais ainda permanecem cépticos. A instabilidade política permanece na Argentina, e políticos e a população se questionam se Duhalde será capaz de terminar seu mandato. A economia ainda tem um longo caminho em direção à recuperação.

Além disso, questões vêm sendo levantadas se a escolha em 1991 foi correta; as opiniões entre economistas estão divididas. O "currency board" controlou realmente a hiperinflação argentina em seus anos iniciais. Porém, alguns economistas acreditam que a escolha de fixar o peso ao dólar foi inapropriada. A economia argentina não possui o que é dado pelos economistas como características necessárias ao optar por um "currency board" ou dolarização. Talvez a resposta seja que o país simplesmente permaneceu muito tempo sob tal regime, insistiu neste, mesmo quando o regime se tornou desapropriado para a necessidade do país. Quem são os culpados e o que deveria ter sido feito é um longo debate a ser mantido pelos economistas. Mas o dano é alto e agora o governo argentino e outras instituições internacionais têm que se concentrar em como reverter à situação e devolver a dignidade e emprego para tantos argentinos que os perderam ao longo destes anos.

 


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