Desenvolvido por Miss Lily Comunicação
Quem Somos Assine Já Fale Conosco FAQ Meus Dados Fazer Login
Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Delicious Blogger WordPress Enviar por e-mail
  Home

 
Conflitos na Índia
 

Conflitos na Índia

Março de 2002

Neste mês, a Índia presenciou atos terríveis de violência entre as populações hindus e muçulmanas do país. Mais de 500 pessoas morreram, muitas delas tendo sido queimadas vivas por quadrilhas de grupos religiosos. 

Os recentes conflitos na Índia começaram em 27 de fevereiro. Uma enfurecida multidão muçulmana incendiou um trem contendo ativistas hindus que pretendiam construir um templo em Ayodhya - local onde uma mesquita foi destruída há quase uma década atrás.  

O incêndio ao trem causou a morte de 58 pessoas. "O trem estava cercado por muçulmanos", relatou Raju Bhargava, o chefe de polícia do distrito onde ocorreu o ataque. "Houve um forte arremesso de pedras e o trem foi então posto em chamas. O fogo espalhou-se tão rapidamente que as pessoas não conseguiam sair do compartimento".

Os hindus que viajavam estavam recitando slogans religiosos quando o trem estacionou em Godhra - cidade em que 40% da população é composta por muçulmanos. Historicamente, Godhra é uma das cidades da Índia mais propensas à tumultos entre hindus e muçulmanos. Líderes do Conselho Mundial Hindu, cujos membros estavam no trem, declararam que o ataque originou de uma mesquita próxima, e sendo assim, foi uma ação premeditada.

Após o ataque ao trem, muitos hindus decidiram retaliar contra a população muçulmana no país. A polícia permaneceu passiva enquanto desordeiros hindus saqueavam, queimavam e matavam muçulmanos. No auge dos tumultos, famílias muçulmanas esconderam-se atrás de portas fechadas enquanto multidões de hindus invadiam residências, carregando bastões de ferro, facas e latas de gasolina que foram usadas para incendiar lares muçulmanos. Nenhum oficial ou bombeiro interviu. Quando as autoridades finalmente chegaram, horas depois, 12 mulheres e 6 homens haviam sido queimados vivos.

Os muçulmanos na Índia acusam o Conselho Mundial Hindu de incentivar os ataques contra muçulmanos com seus gritos tradicionais de "Jai Shri Ram!", que significa "Vitória ao deus Ram!". O Conselho busca construir o templo para Ram em Ayodhya. Foram membros do mesmo grupo que destruíram a mesquita em 1992, o que na época também resultou em violência entre hindus e muçulmanos na Índia.

Quando questionada sobre a acusação de instigar ataques contra muçulmanos, uma mulher hindu que sobreviveu ao incêndio no trem respondeu: "Nós não podemos sentar de braços cruzados. Temos que fazer alguma coisa, e se os muçulmanos não podem viver em paz na Índia, então por que não vão para o Paquistão?".

O Paquistão, formado em 1947 como uma nação para muçulmanos, já fez parte da Índia. Porém muitos muçulmanos continuam vivendo na Índia, constituindo aproximadamente 12% da população do país.

Aparentemente, a fúria da multidão hindu foi alimentada por um boato, incentivado por um líder do Consulado Mundial Hindu, de que os muçulmanos haviam sequestrado e violentado três garotas hindus do trem. Contudo, Raju Bhargava, chefe de policia no distrito onde ocorreu o ataque ao trem, disse que não havia qualquer evidência para comprovar tais acusações.

A fúria dos hindus resultou na morte de centenas de pessoas durante uma das semanas mais violentas na história da Índia. Vinte e um meninos e meninas muçulmanos foram queimados à morte por multidões hindus. As famílias das vitimas assassinadas pelos hindus receberão 100.000 rúpias (aproximadamente 2.000 dólares), como compensação do estado. Mas esta quantia representa apenas metade do que será pago às famílias das 58 vitimas hindus que faleceram no trem. Cada uma delas receberá uma compensação no valor de 200.000 rúpias.

O governo indiano justifica a discrepância na compensação financeira alegando que as pessoas que morreram no trem foram vitimas de terrorismo, enquanto que aqueles que faleceram durante os tumultos são apenas uma trágica consequência de um conflito entre religiões. É óbvio que a comunidade muçulmana na Índia está acusando o governo de discriminação. Além de manter uma política injusta de compensação pelas mortes, nenhum oficial de estado compareceu ao funeral das crianças muçulmanas para oferecer condolências. Os muçulmanos da Índia de fato têm razão para estarem desiludidos com seu governo. Eles atestam que a polícia do país pouco fez para protegê-los dos ataques em massa organizados pelos hindus. Eles também acusam o governo de tentar culpá-los pela violência entre hindus e muçulmanos no país.

Uma análise política foi oferecida por cidadãos muçulmanos para explicar a resposta passiva do governo à violência contra a sua comunidade no país.  O partido governante da Índia - Bharatiya Janata - está perdendo poder e popularidade. Em alguns estados do país, o partido só pode ter certeza de uma vitória eleitoral se for capaz de unir os hindus, que são um povo tradicionalmente dividido por castas. Em certos estados da Índia, a homogenia política dos hindus só pode ser alcançada unindo-os contra um inimigo comum: os muçulmanos no país.

Contudo, esta explicação pode ser um pouco simplista. Prova disso é que dois dos principais líderes da Índia condenaram os hindus pelos tumultos e mortes. Sr. Vajpayee e o Ministro da Habitação L.K. Advani exigiram o fim da violência incentivada pelo Conselho Mundial Hindu. É importante ressaltar que ambos líderes são membros de um partido hindu nacionalista.

O Sr. Vajpayee determinou que o Conselho Mundial Hindu não poderá construir um templo onde foi destruída a mesquita - local em que hindus acreditam ter sido o nascimento de seu ídolo Ram. O Sr. Vajpayee também declarou que o conflito sobre o que deve ser feito com o local deve ser resolvido através de negociações ou em tribunais, e não com violência. Ele declarou que o Conselho Mundial Hindu deveria "cooperar com o governo para criar a paz e fraternidade no país". 

Ainda mais notável foi uma advertência feita pelo Ministro da Habitação, o Sr. Advani. Ele notificou o Conselho Mundial Hindu que se este persistisse com seus planos para desafiar a lei e erguer o templo, o governo da Índia não hesitará em tomar medidas contra seus integrantes.

Conflitos na Índia: Dados Históricos

A Índia obteve a sua independência em 1947. Seu movimento nacional foi liderado por Mohandas K. Gandhi (conhecido como Mahatma Gandhi) e Jawaharlal Nehru. Porém Mohammad Ali Jinnah, líder dos muçulmanos no país, temia que seus correligionários se tornassem uma minoria perseguida numa terra dominada por hindus. Ele acreditava que a Índia deveria transformar-se em duas nações. O país sofreu uma divisão e foi formado o estado islâmico do Paquistão. Mas a repartição da Índia causou grande violência: aproximadamente 500.000 pessoas foram mortas, e mais de 11 milhões de hindus e muçulmanos tornaram-se refugiados, tentando imigrar de um país para o outro. Apesar de todo o derramamento de sangue e sofrimento, a criação do Paquistão não resolveu os conflitos na Índia. Quase 50% dos muçulmanos que viviam na Índia permaneceram lá e não imigraram ao recém-estabelecido país islâmico. Este grupo representa a maior minoria religiosa na Índia - 12% da população do país.

Os hindus, ainda que compartilhando uma religião em comum, estão divididos em diversas seitas e são segmentados socialmente por milhares de castas. As diversas regiões geográficas da Índia são linguística e culturalmente distintas. Mais de doze línguas são faladas no país. Reconhecendo a existência de tamanha diversidade, os criadores da Constituição indiana buscaram reconhecer o pluralismo na nação garantindo direitos fundamentais, particularmente para a proteção de minorias. A Constituição garante liberdade religiosa e cultural, e permite o estabelecimento de instituições educacionais religiosas que não sejam hinduístas.

A Índia atual é definida por suas diversas identidades religiosas e por seus conflitos resultantes. O trauma da divisão (com a criação do estado do Paquistão) ainda é visível no país, e centenas de incidentes de violência entre grupos religiosos são registradas todo ano. Em dezembro de 1992, fanáticos hindus destruíram a mesquita de Ayodhya, o que causou tumultos resultando na morte de 1.200 pessoas. De acordo com a tradição hindu, a cidade de Ayodhya é o local de nascimento de seu deus Ram. Devotos declaram que no século XVI, o imperador mogul Babur destruiu o templo e construiu em seu lugar a mesquita. A dinastia Mogul, fundada por Babur, foi uma linhagem de soberanos muçulmanos indianos que governou a Índia de 1526 a 1858.

É importante ressaltar que enquanto o hinduísmo é uma religião politeísta - que acredita em muitos deuses - o islã é puramente monoteísta. A destruição da mesquita e a construção de um templo para um deus hindu é um ato de idolatria e portanto uma severa provocação contra muçulmanos. Outros incidentes violentos atormentaram o país desde então. Em janeiro de 1993, ataques contra muçulmanos ocorreram em Bombaim, deixando mais de 600 mortos.

A Índia, maior democracia do mundo, é um estado oficialmente secular (laico), mas composto por pessoas de diferentes e fortes crenças religiosas. O desafio do governo não é de apenas conter a expansão da violência entre grupos religiosos no país, mas também de promover justiça, igualdade, e uma democracia legítima para todas os integrantes de sua sociedade pluralista.

 


Ver Próximo Artigo: Daniel Pearl
 
Ver Artigo Anterior: Conflito da Chechênia
 


 

Aulas de Biologia
7 novas aulas
Fisiologia Animal – índice Vestibular