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"A família estava reunida em torno do fogo, Fabiano
sentado no pilão caído, Sinhá Vitória de pernas cruzadas, as coxas servindo
de travesseiros aos filhos. A cachorra Baleia, com o traseiro no chão
e o resto do corpo levantado, olhava as brasas que se cobriam de cinza.
Estava um frio medonho, as goteiras pingavam lá fora, o
vento sacudia os ramos das catingueiras e o barulho do rio era como um
trovão distante.
"[...] um círculo de luz espalhou-se em redor da trempe
de pedras, clareando vagamente os pés do vaqueiro, os joelhos da mulher
e os meninos deitados. De quando em quando estes se mexiam, porque o lume
era fraco e apenas aquecia pedaços deles. Outros pedaços esfriavam recebendo
o ar que entrava pelas rachaduras das paredes e pelas gretas da janela.
Por isso não podiam dormir."
O capítulo oitavo, "Festa", apresenta a família de retirantes
em preparativos a caminho da festa de Natal na cidade. O evento marca
ainda mais a diferença social. O narrador começa por descrever a família
metida numa roupagem a que não se acostumara. Todavia, era necessário.
Era tradição que não lhes cabia alterar. Seria desrespeito ir à igreja
sem estar vestido a rigor:
Fabiano, Sinha Vitória e os meninos iam à festa de Natal
na cidade. Eram três horas, fazia grande calor, redemoinhos espalhavam
por cima das árvores amarelas nuvens de poeira e folhas secas.
Tinham fechado a casa, atravessado o pátio, descido a
ladeira, e pezunhavam nos seixos como bois doentes dos cascos. Fabiano,
apertado na roupa de brim branco feita por Sinha Terta, com chapéu de
baeta, colarinho, gravata, botinas de vaqueta e elástico, procurava erguer
o espinhaço, o que ordinariamente não fazia. Sinha Vitória, enfronhada
no vestido vermelho de ramagens. equilibrava-se mal nos sapatos de salto
enorme. Teimava em calçar-se como as moças da rua —e dava topadas no caminho.
Os meninos estreavam calça e paletó. Em casa sempre usavam camisinhas
de riscado ou andavam nus. Mas Fabiano tinha comprado dez varas de pano
branco na loja e incumbira Sinha Terta de arranjar farpelas para ele e
para os filhos. Sinha Terta achara pouca a fazenda, e Fabiano se mostrara
desentendido, certo de que a velha pretendia furtar-lhe os retalhos. Em
conseqüência as roupas tinham saído curtas, estreitas e cheias de emendas.
Fabiano tentava não perceber essas desvantagens. Marchava
direito, a barriga para fora, as costas aprumadas, olhando a serra distante.
De ordinário olhava o chão, evitando as pedras, os tocos, os buracos e
as cobras. [...]"
Desta forma, além do infortúnio climático a que vivem
submetidos, há a pressão social. Fabiano, sinhá Vitória e os meninos percebem
estar fora de seu meio; admiram-se do lugar, mas são inadaptados a ele.
A presença de muitos soldados amarelos trazia amargas lembranças a Fabiano,
enquanto a sinhá Vitória restava o sonho de uma cama de verdade, como
a de Seu Tomás da bolandeira.
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