|


|
Narrado em terceira pessoa por um narrador onisciente, O Guarani
apresenta um enredo marcado pelo idealismo e pelo sentimento nacionalista.
D. Antônio de Mariz, fidalgo português, instala, nos fins do século XVI,
uma fazenda às margens do rio Paquequer, mantendo fidelidade absoluta
ao propósito de colonização portuguesa (Portugal encontrava-se sob domínio
espanhol). Sua casa passa, assim, a representar, no interior do Brasil,
a resistência ao poder espanhol e funciona como abrigo de portugueses
ilustres unidos pelo mesmo ideal patriótico e colonizador:
“[...] Tomou os seus penates, o seu brasão, as suas armas,
a sua família, e foi estabelecer-se naquela sesmaria que lhe concedera
Mem de Sá. Aí, de pé sobre a iminência em que ia assentar o seu novo solar,
D. Antônio de Mariz, erguendo o vulto direito, e lançando um olhar sobranceiro
pelos vastos horizontes que abriam em torno, exclamou:
— Aqui sou português! Aqui se pode respirar à vontade um
coração leal, que nunca desmentiu a fé do juramento. Nesta terra que me
foi dada pelo meu rei, e conquistada pelo meu braço, nesta terra livre,
tu reinarás, Portugal, como viverás n’ alma de teus filhos. Eu o juro!”
D. Antônio acolhe, também, alguns mercenários cobiçosos de ouro e prata,
entre os quais se destaca Loredano, ex-padre e assassino de um homem a
quem roubara o mapa das minas de prata do lugar onde se assenta o solar:
“Em um círculo de uma légua da casa, não havia senão algumas
cabanas em que moravam aventureiros pobres, desejosos de fazer fortuna
rápida, e que tinham-se animado a se estabelecer neste lugar, em parcerias
de dez e vinte, para mais facilmente praticarem o contrabando do ouro
e pedras preciosas, que iam vender na costa.
[...]
O fidalgo os recebia como um rico-homem que devia proteção
e asilo aos seus vassalos; socorria-os em todas as suas necessidades,
e era estimado e respeitado por todos que vinham, confiados na sua vizinhança,
estabelecer-se por esses lugares. ”
|