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Publicado em 1857 (inicialmente em folhetins e no mesmo ano em volume)
O Guarani é considerado a “epopéia da formação da nossa nacionalidade”,
dentro do propósito romântico de afirmação nacional e exaltação patriótica.
Idealizando tanto o índio como o colonizador português, que constituem
o esteio de nossa raça, o livro, nas palavras — anteriormente transcritas
— do próprio autor, insere-se naquele período que
“[...] representa o consórcio do povo invasor com a terra
americana, que dele recebia a cultura, e lhe retribuía nos eflúvios de
sua natureza virgem e nas reverberações de um solo esplêndido. [...] É
a gestação lenta do povo americano, que devia sair da estirpe lusa, para
continuar no novo mundo as gloriosas tradições de eu progenitor.”
Como já observado, José de Alencar cultivou, além do romance indianista,
o romance histórico, o regionalista e o urbano (de costumes). No romance
indianista, abarcou três fases da nossa história relativamente ao contato
entre o índio e o branco:
- o período pré-cabralino: Ubirajara, cujo enredo se passa antes
da colonização portuguesa, com os índios ainda livres de qualquer influência
estrangeira;
- os primeiros contatos entre o índio e o branco: Iracema, cujo
enredo é dominado pela relação amorosa entre a personagem-título e o
guerreiro português Martim;
- a colonização: O Guarani, que trata da convivência entre o
índio e o branco já no processo de colonização.
Embora se classifique como indianista, O Guarani apresenta também
diversas características dessas outras variações ficcionais, principalmente
do romance histórico.
Tal como Iracema (com as personagens Poti, Jacaúna, Irapuã, Martim
Soares Moreno), O Guarani traz personagens construídas com base
em figuras que realmente existiram e fizeram parte da história brasileira.
Já no primeiro capítulo o autor se inspira em fontes históricas para descrever
o rio Paquequer.
D. Antônio de Mariz, uma das personagens centrais, é, por exemplo, ninguém
menos que um dos nobres que assistiram à cerimônia de fundação e às edificações
da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, na companhia de Mem de Sá,
além de ter sido um dos defensores do solo brasileiro nos combates contra
os franceses. É armado cavaleiro em 1578 e exerce os cargos de governador
da real fazenda e de juiz da alfândega. Mas cairia no esquecimento, se
não fosse resgatado como personagem por José de Alencar.
A presença do regionalismo se mostra na ambientação de uma fazenda como
principal cenário onde transcorre a história; e a descrição pormenorizada
dos detalhes sociais remete ao romance de costumes.
A linguagem é rica, colorida, adjetivosa, exuberante, marcada por metáforas
e imagens grandiosas, exóticas e atraentes, de grande plasticidade. A
idealização está presente a cada passo, tanto nas descrições da natureza,
quanto na apresentação das personagens. Se Ceci é a heroína adolescente,
Peri é o “bom selvagem” de Rousseau, um autêntico cavaleiro medieval,
“cavalheiro português no corpo de um selvagem!”
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