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Matérias > Obras Literárias > O Guarani - José de Alencar

-O índio, como o “bom selvagem” de Rousseau, amalgamado à natureza, é separado dramaticamente de D. Antônio de Mariz, “português de antiga têmpera, fidalgo leal”. Enquanto D. Antônio é senhor em sua casa, chefe de seu clã e representante da metrópole, guardião das tradições e, portanto, o senhor cultural, Peri é senhor em seu habitat, (a natureza), o herói das florestas brasileiras, guerreiro invencível, representando o senhor natural. Entre os dois se coloca intermediariamente Ceci, único elemento do mundo cultural a realizar harmoniosamente uma integração à natureza, movida pela força de atração de Peri. 

A terceira etapa apresenta a confirmação de que a natureza é superior à cultura, conforme preconizava o ideário do Romantismo. Iniciada dentro de um código que remetia ao substrato medieval, a narrativa caminha para uma posição ideológica mais romântica: Peri passa a ser o verdadeiro mediador entre a cultura e a natureza, introduzindo e acompanhando Ceci no conhecimento de si mesma e desse novo mundo. A Natureza passa, então, a ter supremacia sobre a cultura, realizando o ideal romântico de liberdade e pureza: o herói primitivo,  Peri, cujo nome significa “junco selvagem”, é o próprio símbolo da natureza. Essa predominância se acentua à medida que surge o mítico na narrativa, à medida que a obra vai abandonando seu caráter histórico e novelesco e identificando-se com o mito. Os dois mitos finais, um de origem judaica (Noé) e outro indígena (Tamandaré), indiciam a solução para a história, que já fora encaminhada ao longo da narrativa e de certa forma predita quando Peri conta a Ceci a lenda o Tamandaré. Apoiando-se no mítico, o texto vai-se aproximando do poético.

Ceci, nesta parte, passa a manter um novo tipo de relação com as coisas da natureza, já que Peri, reintegrado em seu mundo natural,  pode comunicar-se com ela num mesmo código, porque ela já o desvendou, em seu processo de integração à natureza. Restabelece-se a atmosfera edênica inicial do romance, que fora perdida e que nesta fase final se manifestará mais completamente, uma vez que a aparência substitui a essência.

Tudo o que representava a supremacia da cultura sobre a natureza fora destruído: a casa, as pessoas, os costumes, os objetos. Todas as diferenças sociais, raciais. O mundo feudal, que pode ser visto metaforicamente como as amarras às raízes de Portugal, vai pelos ares. Restam, agora, os dois, Peri e Ceci, num ambiente paradisíaco, edênico, em que podiam “ser”, em toda a plenitude. E dar início a uma nova raça, mestiça, morena, tropical, conforme o pensamento de José de Alencar.

E a uma língua rica, natural, que  “serpeja ou salta como o rio que se despenha da cascata”, uma língua brasileira, contribuição sem preço de um autor que lutou por uma língua nacional e que mereceria de Mário de Andrade a elogiosa referência “A José de Alencar, pai-de-vivo que brilha no vasto campo do céu” na primeira versão manuscrita de seu Macunaíma, o herói de nossa gente, sem nenhum caráter, o “antiPeri”.

Resumo elaborado por Ester D. Braga Tavares de Castro


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