Em consequência, a Europa passou a viver um atribulado período
de revoluções. Tensões sociais e inquietações econômicas surgiam de todos os
lados, gerando insegurança. As revoltas que partiam das cidades flamengas, onde
as grandes comunas tomaram a direção do movimento político, eram movimentos
semelhantes na França, na Itália, na Inglaterra, em Portugal, em toda parte.
As rebeliões populares destronaram a oligarquia burguesa dos postos de comando,
sem contudo conseguirem estabelecer uma ordem durável. A guerra, por seu lado,
tornava cada vez mais crítica a situação dos pequenos e dos pobres. A Europa
do século XIV apresentava o triste espetáculo de uma civilização em crise.
Essas revoluções democráticas atestam as profundas transformações
da vida econômica e da estrutura social do Ocidente cristão no decorrer da
Baixa Idade Média. Nessas lutas, a burguesia conjugava todas as suas forças
para arrebatar à nobreza o poder político. Para isso, aproveitava as explosões
de desespero das classes populares, permanentemente sacrificadas. À medida
que minguavam os rendimentos do senhor rural, comprimindo-se a aristocracia
da terra entre a ameaça da centralização do poder real e as novas forças econômicas
emergidas da reconquista cristã do Mediterrâneo, desagregava-se o prestígio
da tradicional sociedade campesina, para dar lugar a uma nova classe composta
de comerciantes, marinheiros e armadores, amparada pelo trono. Nessa classe
via-se, cada vez mais nitidamente , a base em que se erguia o edifício da
nova Europa. As estruturas econômico-sociais sentiam, então, a urgente necessidade
de se libertarem das tradicionais sujeições impostas pelos “consórcios” ítalo-muçulmanos
da orla mediterrânea.
Investindo contra esse monopólio conservador, o incipiente capitalismo
comercial do Continente Europeu poderia sobreviver e desenvolver-se. Para
isso necessitava, antes de tudo, quebrar as amarras que o prendiam, desprezando
os problemas ligados ao Mediterrâneo e alargando sua expansão econômica até
os ricos mercados de ouro, dos escravos e das especiarias afro-asiáticas.
Foi quando se colocou à Europa Ocidental a questão da conquista do Atlântico
desconhecido. Solução arriscada e dispendiosa, mas única.