Quatro anos depois, com o reconhecimento da autonomia portuguesa
na Conferência de Zamora, estaria consolidada a primeira dinastia do novo
reino: a dinastia de Borgonha.
Como vimos, ao assinalarmos os principais eventos de sua formação,
Portugal era a princípio um simples condado resultante do fracionamento da
Galiza e foi forjado no calor de violentas lutas contra espanhóis e árabes.
Em decorrência das necessidades militares impostas por essa situação, o reino
luso, antecipando-se às demais nações européias, apresentou um rápido fortalecimento
do poder real, em detrimento da descentralização política própria às formas
feudais. De fato, a Reconquista e a constante ameaça leonesa, exigindo a
manutenção de um exército permanente, levaram a monarquia lusitana a concentrar
o poder em suas mãos. Dessa forma, embora ainda predominassem relações de
vassalagem no campo, a nobreza lusa não era detentora de grandes privilégios
políticos. A inexistência em território português de uma Idade Média, no sentido
sociológico, acarretou duas consequências fundamentais. Primeiramente, Portugal
conheceria o desenvolvimento de um nacionalismo prematuro, ao tempo em que,
noutras regiões da Europa, o conceito de nacionalidade ainda se encontrava
num estágio embrionário. Em segundo lugar, a guerra portuguesa contra os mouros,
ao contrário do que ocorreu no resto da Península Ibérica, não seria travada
em nome do Ocidente cristão, assumindo um caráter acentuadamente nacionalista.
Ainda nos momentos iniciais da formação lusitana, sob a dinastia
de Borgonha, surgiu o contraste, que perduraria por longos anos, entre o litoral
e o interior. O primeiro, onde a pesca, a navegação e o comércio conheceram
grande desenvolvimento, era marcado por grandes flutuações sociais, mobilidade
populacional, lucrativas trocas e amplos contatos com mercadores estrangeiros.
No interior, pelo contrário, a atividade agrícola, realizada em bases feudais,
vivia em permanente crise, responsável pelo êxodo de populações inteiras.