Em 1415, data inicial da aventura marítima portuguesa, Ceuta
foi conquistada pelos navegadores e soldados do rei D. João I. Inúmeras razões
levaram Portugal à tomada da importante cidade. Imperativos de toda ordem
- políticos, religiosos e econômicos - atuaram como elementos motores do empreendimento.
Cada razão, cada estímulo, agiria mais fortemente neste ou naquele setor da
sociedade lusa. Os motivos eram diversos, mas ninguém se mostrava insensível
às aspirações de natureza econômica ou religiosa. Realmente, a conquista de
Ceuta foi uma empresa nacional e cosmopolita, englobando os mais díspares
interesses. A aventura convinha ao Rei, à nobreza, à burguesia dos portos,
ao “povo miúdo”, enfim, à nação. A necessidade comum de superar os males
decorrentes das crises do século XIV aglutinava todos os ânimos em torno do
objetivo de levar avante a temerária expedição. Ceuta, conquistada em função
de um complexo de motivos, arremessaria os Aviz para o Atlântico.
O assalto a Ceuta agradava ao rei e aos fidalgos, servos da fé
católica. A ocupação da cidade moura estava profundamente ligada ao velho
impulso medieval da Reconquista. O espírito cruzadista animava a realeza e
a aristocracia. A fidalguia, fiel aos seus votos, sacrificou a vida com o
nobre propósito de “servir a Deus”. Com efeito, para a nobreza, toda expansão
ultramarina seria um esforço sagrado para a dilatação dos preceitos católicos.
A conquista oceânica, no entender do aristocrata, seria a última cruzada,
a maior e mais frutífera das quantas até então se tinham realizado para esmagar
o infiel muçulmano e propagar o dogma católico. Possuir Ceuta, portanto, significava,
acima de tudo, fazer recuar o Islão.
Além do fervor religioso, outro fator da entusiástica adesão da
nobreza ao saque de Ceuta foi sua difícil situação financeira. Na realidade,
boa parte dos fidalgos era pensionista da Coroa. Vendo os proventos da terra
diminuírem cada vez mais em virtude da desvalorização monetária, a aristocracia
portuguesa achava-se num impasse econômico, não sabendo qual o melhor caminho
a seguir. Para impedir a constante diminuição de seus já parcos recursos,
ela só tinha um remédio: alargar por meio da conquista a sua magra bolsa.
Atacar Castela, hegemônica na Península Ibérica, seria uma imprudência que
não interessava à Casa de Aviz, ainda imatura no trono. Restava, pois, uma
saída: desviar a impetuosa porém necessitada nobreza lusitana para o Marrocos.