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Matérias > História > Índice Cursinho > História Geral > Mundo Contemporâneo > Século XIX > Era Napoleônica

Acontece que a Inglaterra contrabandeava, por sua vez, com os países submetidos à França. A esses não chegavam, pois, exceto através de audazes entrepolos, os produtos de além-mar, os célebres gêneros coloniais que tão largo consumo tinham no Velho Mundo. Daí surgiram esforços consideráveis para substituir, com recursos locais, tudo que antes costumava vir da América, da África e das Índias. Essas tentativas, em alguns casos, deram ótimos resultados. Haja vista o aperfeiçoamento do processo de extrair açúcar de beterraba, que rapidamente se generalizou, e depois das coisas normalizadas, acabou trazendo não pequenos prejuízos a diversos países tropicais produtores de cana, inclusive o nosso.

Inicialmente, porém, o açúcar de beterraba ficava por preço elevadíssimo. O encarecimento geral da vida foi uma das consequências do Bloqueio, que também veio contrair os hábitos há muito arraigados entre os europeus. A falta de café, entre outras coisas, fortemente se fez sentir. E todas essas restrições não concorreram, por certo, para atenuar o descontentamento das populações sobre as quais Napoleão estendera seu domínio. Outra causa do aborrecimento residia nos prejuízos sofridos por produtores e exportadores de certos artigos  —  notadamente o trigo  —  que anteriormente tinham na Inglaterra seus melhores mercados de  consumo ou distribuição.

Para obrigar os povos conquistados a suportar todas essas contrariedades, viu-se o Imperador obrigado a contínuas intervenções armadas, em que se foram desgastando as energias da França.

Determinou admirável reação na Inglaterra o golpe, sem dúvida terrível, trazido ao comércio e à indústria pelo Bloqueio Continental. Não perderam um só momento os enérgicos dirigentes desse país. Logo que tiveram notícia de estarem vedados às suas mercadorias os portos europeus, procuraram conquistar novos mercados que compensassem, pelo menos parcialmente, tão grande perda.

As possibilidades eram as possessões portuguesas  e espanholas da América, onde ainda vigorava o regime monopolista. Se essas colônias viessem a conseguir sua independência, os novos países assim formados constituiriam mercados esplêndidos, onde os britânicos poderiam despejar, em condições altamente compensadoras, os produtos de suas indústrias. Não só essa vantagem estava ligada à emancipação de tais regiões, pois outro problema preocupava a Inglaterra. Acumulara ela, durante o século XVIII, capitais consideráveis para os quais precisava encontrar rendosa aplicação. Ora, todas as nações que surgissem nas Américas teriam necessidade de dinheiro, a fim de começar sua vida, e aí estariam, pressurosos, os banqueiros ingleses a lhes satisfazer os pedidos de numerários, mediante empréstimos que, forçosamente, seriam muito vantajosos  —  para quem os concedesse. Havia conveniência, portanto, em fomentar e apoiar diretamente os esforços de libertação dos territórios ibero-americanos. E os ingleses não demoraram a pôr as mãos à obra, conquanto seu astuto governo raramente tomasse atitudes declaradas que o comprometessem nos acontecimentos. No Brasil, a princípio, não lhes foi necessário auxiliar nenhum movimento político ou militar, pois o próprio desenvolvimento dos eventos europeus lhe permitiu aqui virem buscar, sem riscos  nem dispêndios, a primeira grande compensação ao prejuízo do Bloqueio Continental.


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